Canteiro de obras durante a construção de Brasília em 1959
Canteiro de obras de Brasília em 1959. Acervo Arquivo Nacional.

Atualizado em setembro de 2026.

Brasília ainda nem havia sido inaugurada quando um dos episódios mais controversos de sua construção ocorreu no acampamento da construtora Pacheco Fernandes Dantas. Era fevereiro de 1959. A futura capital era um gigantesco canteiro de obras, ocupado por milhares de trabalhadores vindos de diferentes partes do Brasil. Eles ficaram conhecidos como candangos.

No acampamento da Pacheco Fernandes, uma reclamação sobre a qualidade da comida servida no refeitório acabou desencadeando uma sequência de conflitos. A Guarda Especial de Brasília, a GEB, foi chamada. Horas depois, houve tiros, trabalhadores feridos e pelo menos uma morte oficialmente registrada: a de Evaristo Soares Brandão.

O problema é que a história não termina aí. A documentação oficial aponta um morto, mas antigos trabalhadores relataram números muito maiores. Dois jornalistas que investigaram o caso chegaram a registrar uma versão de nove mortos e pelo menos 30 baleados. Outros depoimentos falaram em dezenas ou até mais de uma centena de vítimas. Essas cifras maiores, porém, nunca foram comprovadas por documentação conclusiva.

É justamente a distância entre o que aparece nos autos e o que sobreviveu na memória oral dos candangos que transformou o chamado Massacre da Pacheco Fernandes em um dos capítulos mais difíceis de reconstruir da história de Brasília.

Quantos morreram afinal?

A resposta historicamente responsável é: não sabemos com certeza se houve mais mortos além do único óbito documentalmente comprovado.

O que a documentação recuperada permite afirmar é que Evaristo Soares Brandão morreu após ser atingido por um tiro. Também existem laudos médicos referentes a 48 trabalhadores feridos. Três desses trabalhadores apresentavam ferimentos por arma de fogo; os outros 45 tinham escoriações, hematomas, fraturas e outros traumas.

Além disso, a perícia encontrou 41 perfurações provocadas por projéteis nas estruturas do alojamento e registrou 13 cápsulas de calibre .38. Esses dados mostram que a ação foi muito mais violenta do que a versão simplificada de “um morto e três feridos” que por muito tempo circulou sobre o episódio.

A revolta começou no refeitório

As diferentes reconstruções históricas convergem em um ponto: a confusão começou por causa da comida. Trabalhadores reclamaram da qualidade das refeições servidas no acampamento. O descontentamento evoluiu para uma briga e a direção da construtora acionou a segurança.

A pesquisa acadêmica da Universidade de Brasília situa o episódio em 8 de fevereiro de 1959, durante o Carnaval. Fontes jornalísticas posteriores registram pequenas divergências na cronologia entre os dias 7, 8 e 9 de fevereiro, mas o núcleo dos acontecimentos é o mesmo: uma revolta de trabalhadores terminou com intervenção armada da Guarda Especial de Brasília.

Quem era a Guarda Especial de Brasília?

Brasília ainda não possuía a estrutura policial existente depois da inauguração. Durante a construção, a Guarda Especial de Brasília atuava na manutenção da ordem nos acampamentos e nas áreas de obra.

Relatos de antigos trabalhadores e pesquisas sobre o cotidiano dos candangos descrevem uma relação frequentemente tensa entre os operários e a GEB. Estudos da UnB recuperam memórias de jornadas longas, alojamentos precários, problemas de higiene e alimentação e episódios de violência envolvendo a guarda.

O próprio Senado, em material histórico sobre os candangos, classifica o caso Pacheco Fernandes como um dos episódios mais controvertidos da construção de Brasília.

O reforço chegou com 27 homens

Segundo a reconstrução baseada nos autos e em reportagens posteriores, uma pequena equipe policial chegou inicialmente ao acampamento e acabou cercada pelos trabalhadores. A situação foi comunicada ao Departamento de Segurança Pública.

Depois veio o reforço: 27 integrantes da GEB. A partir daí, começaram os disparos que deixariam marcas nas paredes e telhados de madeira dos alojamentos.

Essas estruturas eram frágeis. Uma bala que atravessasse uma parede de madeira podia atingir trabalhadores do outro lado. A perícia registraria dezenas de perfurações.

Os 48 trabalhadores feridos

Décadas depois, uma investigação do Correio Braziliense localizou e analisou exames de corpo de delito produzidos após o episódio. Os documentos registravam 48 trabalhadores feridos.

Três deles foram atingidos por tiros: Francisco Clemente dos Santos, Antônio de Souza e Antônio Ubaldo Morais. Os demais apresentavam lesões compatíveis com pancadas, quedas e o tumulto provocado pela ação policial.

Esse achado foi importante porque ampliou de forma documentada a dimensão da violência. Mesmo que não comprovasse dezenas de mortos, demonstrava que havia muito mais vítimas do que a narrativa resumida da época sugeria.

Evaristo Soares Brandão: a morte comprovada

O nome que aparece de forma inequívoca nos registros é o de Evaristo Soares Brandão.

O exame cadavérico recuperado na documentação aponta que ele foi atingido por um disparo na perna esquerda. Relatos ligados ao processo indicam que ele teria tentado se proteger debaixo de uma cama. A hemorragia provocada pelo ferimento levou à sua morte.

Evaristo tornou-se, assim, a única vítima fatal reconhecida oficialmente nos autos conhecidos.

Então de onde vieram as histórias de dezenas de mortos?

Vieram principalmente da memória oral de trabalhadores que viveram nos canteiros de Brasília.

Ao longo das décadas, antigos candangos relataram ter visto corpos, caminhões retirando vítimas e alojamentos com pertences abandonados. Alguns depoimentos falaram em dezenas de mortes. Outros elevaram o número ainda mais.

Esses relatos têm valor histórico porque revelam como o episódio foi lembrado por quem viveu naquele ambiente. Mas memória oral e comprovação documental não são a mesma coisa. Até hoje, não foram localizados registros, corpos ou ossadas capazes de confirmar de maneira conclusiva cifras como 50, 100 ou mais mortos.

Dois jornalistas falaram em nove mortos

Entre a versão oficial de um morto e os relatos de dezenas de vítimas existe uma terceira versão: a de jornalistas que investigaram o episódio e apontaram nove mortos e pelo menos 30 baleados.

Essa informação é relevante porque mostra que a dúvida sobre o número oficial surgiu ainda relativamente perto dos acontecimentos. Ainda assim, os nove óbitos não estão documentalmente comprovados de forma conclusiva.

Podemos chamar o episódio de massacre?

O termo “Massacre da Pacheco Fernandes” tornou-se o nome histórico mais conhecido do caso. Ele aparece em pesquisas acadêmicas, reportagens e materiais memorialísticos.

Isso não significa que um número específico de dezenas ou centenas de mortos esteja comprovado. Neste artigo, usamos “massacre” como a denominação histórica consolidada do episódio, ao mesmo tempo em que deixamos clara a diferença entre o que está documentado e o que permanece em disputa.

Houve investigação?

Sim. Existiram inquérito, exames de corpo de delito, exame cadavérico, perícia nas instalações, registro de cápsulas e perfurações de bala, além de depoimentos.

Segundo a investigação recuperada por reportagens posteriores, 30 pessoas chegaram a aparecer inicialmente como indiciadas: 27 integrantes da GEB, dois funcionários ligados à construtora e um chefe policial.

O caso, porém, não resultou em uma responsabilização criminal capaz de encerrar as dúvidas históricas. A apuração terminou sem uma resposta aceita por todas as partes sobre a extensão completa da violência.

Por que esse episódio ficou tão pouco conhecido?

Em fevereiro de 1959, Brasília ainda não tinha sido inaugurada. Não existia uma imprensa local estruturada comparável à que surgiria depois. O Correio Braziliense, por exemplo, começaria a circular na cidade apenas em 21 de abril de 1960.

Jornais de outros estados chegaram a mencionar o caso, mas a ausência de uma cobertura local robusta dificultou o acompanhamento independente em tempo real. Durante décadas, a narrativa monumental da construção de Brasília — palácios, avenidas, arquitetura moderna e inauguração — acabou ocupando muito mais espaço na memória pública do que os conflitos trabalhistas dos canteiros.

Isso não prova uma operação coordenada para apagar o episódio, mas ajuda a explicar por que ele permaneceu menos conhecido do que outros capítulos da história da capital.

As condições de trabalho ajudam a entender o conflito

O episódio não pode ser entendido apenas como “uma briga por comida”. Pesquisas sobre a vida dos candangos descrevem jornadas longas, alojamentos improvisados, dificuldades de higiene, acidentes de trabalho e enorme pressão para cumprir o cronograma da nova capital.

A data da inauguração já estava marcada: 21 de abril de 1960. Faltavam pouco mais de 14 meses para que palácios, ministérios, residências, vias e serviços estivessem prontos.

Essa pressão fazia parte do cotidiano dos trabalhadores que erguiam a cidade e ajuda a contextualizar as tensões dentro dos acampamentos.

O documentário que manteve a memória viva

Décadas depois, o cineasta Vladimir Carvalho deu grande visibilidade às memórias dos trabalhadores em Conterrâneos Velhos de Guerra. O documentário reuniu depoimentos de candangos e ajudou a recolocar o episódio da Pacheco Fernandes no debate sobre a construção de Brasília.

Os relatos apresentados no filme não resolvem sozinhos a questão do número de mortos, mas impedem que a história seja contada apenas a partir dos documentos administrativos produzidos pelas autoridades da época.

Em 2009, novos documentos vieram à tona

Ao completar 50 anos, o caso voltou a ser investigado de forma aprofundada pelo Correio Braziliense. A equipe consultou inquéritos, documentos médicos, pesquisadores, pioneiros e depoimentos preservados pelo Arquivo Público do Distrito Federal.

Foi nessa investigação que os 48 exames de corpo de delito ganharam ampla divulgação. A descoberta não confirmou as versões de dezenas de mortos, mas comprovou documentalmente que a quantidade de trabalhadores atingidos pela violência era muito maior do que se divulgava de forma simplificada.

O mistério continuou depois de seis décadas

Pesquisas acadêmicas recentes da Universidade de Brasília continuam tratando o episódio como uma disputa de memória. De um lado, a documentação oficial conhecida. Do outro, os depoimentos dos trabalhadores.

É justamente essa tensão que mantém a pergunta do título aberta.

Sabemos que houve violência. Sabemos que Evaristo morreu. Sabemos que 48 trabalhadores ficaram feridos. O que não sabemos com certeza é se existiram outras mortes não registradas pelos documentos hoje conhecidos.

O que podemos afirmar e o que permanece disputado

Comprovado documentalmente:
1 morte: Evaristo Soares Brandão.
48 trabalhadores feridos.
3 feridos por arma de fogo.
41 perfurações de bala nas instalações.
13 cápsulas calibre .38 registradas.
Participação de 27 integrantes da GEB na ação investigada.

Relatos e versões não comprovados de forma conclusiva:
9 mortos segundo uma investigação jornalística posterior.
Depoimentos falando em dezenas ou mais de cem vítimas fatais.
Relatos de retirada de corpos em caminhões.

A diferença entre esses dois blocos é o ponto central desta reportagem. Uma história pode ser forte sem transformar hipótese em fato.

O legado da Pacheco Fernandes

O episódio obriga Brasília a olhar para quem normalmente aparece pequeno nas fotografias históricas.

Por trás do Congresso, dos palácios e das avenidas estavam milhares de trabalhadores. Homens que dormiam em alojamentos improvisados, carregavam ferro, misturavam concreto e trabalhavam sob pressão para que a cidade ficasse pronta no prazo.

Os grandes nomes da arquitetura e da política foram preservados. Muitos dos trabalhadores desapareceram dos registros sem fotografia, biografia ou memória individual.

A história da Pacheco Fernandes é, por isso, também uma disputa sobre quem tem direito de aparecer na memória da construção de Brasília.

Leia também no JR.V

Esta reportagem se conecta diretamente com nosso artigo sobre quanto custou Brasília, a CPI de 1960 e a guerra política em torno da construção da capital.

Para conhecer os monumentos que estavam sendo erguidos naquele período, veja também nosso guia dos 20 pontos turísticos de Brasília.

E para entender os contrastes sociais da capital atual, confira nosso levantamento dos Restaurantes Comunitários do DF, onde o almoço custa R$ 1.

Perguntas rápidas

Quando ocorreu o Massacre da Pacheco Fernandes?
O episódio é geralmente situado em 8 de fevereiro de 1959, durante o Carnaval, embora algumas fontes apresentem pequenas diferenças na cronologia.

Onde aconteceu?
No acampamento da Construtora Pacheco Fernandes Dantas, na região da atual Vila Planalto.

Por que começou?
As fontes relacionam o início do conflito a reclamações sobre a qualidade da comida, seguidas por uma briga e pela intervenção da Guarda Especial de Brasília.

Quantos morreram oficialmente?
Um trabalhador: Evaristo Soares Brandão.

Quantos ficaram feridos?
Os laudos médicos divulgados posteriormente documentam 48 trabalhadores feridos, três deles atingidos por tiros.

Houve mais mortos?
Existem testemunhos e versões jornalísticas que afirmam isso, mas essas cifras maiores não foram comprovadas de forma conclusiva pela documentação conhecida.

Os 48 trabalhadores feridos documentados

Período: fevereiro de 1959 · Unidade: trabalhadores

Os laudos médicos documentam 48 trabalhadores feridos; três apresentavam ferimentos por arma de fogo e 45 outros tipos de trauma. Fonte: consultar dados.
Ver dados do gráfico
Item trabalhadores
Feridos por arma de fogo 3
Outros traumas 45

Pessoas inicialmente indiciadas na investigação

Período: 1959 · Unidade: pessoas

A investigação mencionada nas reportagens registrou inicialmente 27 integrantes da GEB, dois funcionários da construtora e um chefe policial entre os indiciados. Fonte: consultar dados.
Ver dados do gráfico
Item pessoas
Integrantes da GEB 27
Funcionários da construtora 2
Chefe policial 1

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Fontes e bibliografia

  1. Brasília 60 anos — Candangos na construção da capital — Senado Federal, 2020-04.
  2. Cotidiano operário durante a construção de Brasília e o massacre da Pacheco Fernandes em 1959: memórias em disputa — Universidade de Brasília, 2023.
  3. Laudos comprovam que 48 operários da Pacheco Fernandes foram agredidos — Correio Braziliense, 2009-02-08.

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